O que Dom Bosco nos ensina sobre fé pública e cuidado com os jovens
No dia 31 de janeiro, a tradição católica recorda João Bosco, conhecido como Dom Bosco, sacerdote italiano do século XIX e fundador da Congregação Salesiana. Sua vida foi marcada por dedicação intensa ao cuidado, à educação e à formação de crianças e jovens pobres, especialmente aqueles esquecidos pelas estruturas sociais de seu tempo.
Esta reflexão parte de uma perspectiva reformada do Evangelho, mas não de uma postura sectária. A fé reformada confessa que a Igreja verdadeira de Jesus Cristo não se limita a uma denominação, mas é composta por todos aqueles que, em todos os tempos e lugares, adoram a Cristo em espírito e em verdade (João 4.23). Essa é a chamada Igreja invisível, conhecida plenamente apenas por Deus, espalhada entre protestantes, reformados, católicos e até entre aqueles que, por diversas razões, vivem à margem das instituições eclesiásticas.
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Por isso, ao olhar para Dom Bosco, não o tratamos simplesmente como alguém “fora” da Igreja verdadeira, mas como alguém cuja vida e obra podem — e devem — ser discernidas à luz do Evangelho, considerando seus frutos, sua confissão de Cristo e seu testemunho público.
Igreja invisível, graça e discernimento cristão
A Escritura ensina que o Senhor conhece os que lhe pertencem (2 Timóteo 2.19). Essa afirmação sustenta a distinção clássica entre a igreja visível, com suas estruturas, tradições e doutrinas humanas, e a igreja invisível, composta pelos verdadeiros crentes, justificados pela fé em Cristo.
João Calvino afirma que, embora a Igreja visível seja necessária, “nem todos os que pertencem externamente à Igreja são verdadeiramente membros de Cristo” (Institutas, IV.1.7). Ao mesmo tempo, ele reconhece que Deus pode operar fé genuína mesmo em contextos e tradições marcados por equívocos doutrinários.
Isso nos leva a uma postura de humildade teológica: toda formulação humana da fé — inclusive a reformada — é limitada, ainda que busque fidelidade máxima às Escrituras. A salvação não repousa na perfeição do sistema teológico, mas na pessoa e na obra de Jesus Cristo.
“Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10.9).

Dom Bosco e os frutos de uma fé encarnada
O centro da atuação de Dom Bosco foi o cuidado com jovens pobres, órfãos, abandonados e explorados. Em um contexto de profundas desigualdades sociais, ele enxergou nesses jovens não apenas um desafio social, mas pessoas criadas à imagem de Deus.
A Bíblia é clara ao afirmar que o cuidado com os vulneráveis é marca da fé autêntica:
“A religião pura e sem mácula, para com nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tiago 1.27).
A tradição reformada ensina, com firmeza, que as boas obras não são a causa da salvação, mas também afirma que elas são seu fruto inevitável. Como escreveu Martinho Lutero, “é impossível separar a fé verdadeira das obras, assim como é impossível separar o sol de seu calor”. E João Calvino: “Somos justificados pela fé somente, mas a fé que justifica nunca está só”.
Sob essa perspectiva, a vida de Dom Bosco aponta para uma fé que não se encerra em fórmulas, mas se manifesta em amor ativo ao próximo.
Educação como vocação cristã e serviço ao Reino
A educação sempre foi entendida, tanto na tradição reformada quanto na história mais ampla do cristianismo, como uma vocação nobre e um serviço ao Reino de Deus. Lutero defendia a educação universal; Calvino incentivou a formação intelectual rigorosa; e a tradição reformada viu no ensino uma forma de glorificar a Deus em todas as áreas da vida.
A Escritura afirma:
“Instrui a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Provérbios 22.6).
Os colégios salesianos, frutos da obra iniciada por Dom Bosco, expressam essa compreensão de que educar é formar caráter, promover dignidade e preparar pessoas para servir à sociedade. Ainda que existam diferenças confessionais, esse compromisso dialoga profundamente com a ética cristã do trabalho e da vocação.

Abraham Kuyper resumiu bem essa visão ao afirmar que “o que quer que o homem faça, para o que quer que aplique sua mão (…) ele está, em qualquer coisa que seja, constantemente diante da face de Deus. Ele está empregado no serviço de seu Deus (…) Ele deve, acima de tudo, almejar à glória de seu Deus”.
Diferenças doutrinárias e maturidade espiritual
Reconhecer os frutos da vida de Dom Bosco não significa ignorar divergências teológicas reais. A fé reformada mantém suas convicções quanto à suficiência de Cristo como único mediador (rejeitando a mediação de santos e a devoção mariana), à justificação somente pela fé em Cristo e à centralidade das Escrituras.
“Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (1 Timóteo 2.5).
Entretanto, a maturidade cristã nos impede de reduzir a fé salvadora a um rótulo denominacional. Como lembra o teólogo reformado contemporâneo Timothy Keller, “somos mais pecadores e falhos do que ousamos admitir, e mais aceitos em Cristo do que jamais ousaríamos esperar”.

Há católicos que, apesar de tensões doutrinárias em sua tradição, confiam unicamente na pessoa e na obra de Jesus Cristo para sua salvação — e isso, à luz do Evangelho, é essencial.
O que aprendemos hoje com Dom Bosco
A vida de Dom Bosco nos desafia a viver uma fé que se expressa publicamente, que se importa com os esquecidos e que assume responsabilidade concreta pelo próximo. Ele nos lembra que o amor cristão não é abstrato, mas encarnado.
O profeta Miqueias resume esse chamado:
“Ele já mostrou a você o que é bom; e o que o Senhor pede de você? Que pratique a justiça,
ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Miqueias 6.8)
Para os cristãos protestantes, a aplicação permanece clara: somos salvos somente pela graça, mediante a fé; mas fomos criados em Cristo Jesus para boas obras (Efésios 2.10). Obras que não nos salvam, mas testemunham que pertencemos a Ele.
Fé pública, unidade essencial e humildade cristã
Olhar para Dom Bosco à luz do Evangelho é um exercício de discernimento, não de relativismo. É reconhecer que Deus age além das fronteiras visíveis da nossa tradição, sem abandonar a verdade revelada nas Escrituras.
Celebrar o que é bom, confessar Cristo como único Salvador e viver uma fé pública, bíblica e humilde é sinal de maturidade cristã — e de fidelidade ao Senhor da Igreja, que conhece os seus e conduz sua Igreja, visível e invisível, até o fim.
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